sábado, 17 de novembro de 2012


REAÇÃO  À  LEITURA   DE  “ A  CABANA”
DE WILLIAM P. YOUNG


Inicio, afirmando que curti muito a minha reação a esta leitura. Aliás,na empolgação, também li: DE VOLTA À CABANA e ENCONTRE DEUS NA CABANA de C.Baxter Kruger  e Randal Rauser, respectivamente.
Levou-me mesmo a parar e refletir... Percebi, com muita alegria, um reforço à minha procura, dinâmica e renovada, da “vida com Deus”, num processo de INTIMIDADE CRESCENTE!
A CABANA se me impôs – algo especialíssimo – quando afirmou, da parte de Deus: “Quando tudo o que consegue ver é a sua dor, talvez você perca a visão de mim”... Seguramente perda irreparável para a possibilidade inicial da INTIMIDADE!
Sinto necessidade de começar, fazendo algumas colocações, que são marcações\limites  da minha reação dentro da totalidade do livro:
1) Com clareza,certifiquei-me do caráter   “ficção”      do texto e isto me deu segurança para gostar. Gostei muito, sem tentar estabelecer parâmetros de realidade, nem sentir interferências  na minha vida de fé...
2) Não me espantou a marca de uma originalidade impensável que atesta a inteligência do autor, com uma prioridade   na temática teológica...
3) Não teria capacidade, nem tive interesse em aprofundar os contextos religioso, psicológico e social do personagem central. Respeitei profundamente a criatividade do autor, dando à luz um “diferente” que, não me amedrontando, foi, sem dúvida, uma possibilidade de enriquecimento...
4)  Não me detive em termos da abrangência e organização da obra como um todo. Daí, para o que me propus, orientei-me, muito mais, pela força\energia da minha reação do que pela totalidade do que escreveu o autor...
Constitui-se então o que desejo expressar, e que denomino “minha reação”, apenas uma tentativa. Seguramente os conteúdos abordados, em sua natureza religiosa\mística, enraízam-se na realidade, sempre misteriosa da Fé. São conteúdos que envolvem relações DEUSxPESSOAS, onde ressaltam-se problemas do viver, em sua complexidade, atingindo conhecimentos, idéias, emoções, sentimentos, sonhos e uma gama imensa de “coisas” que “palavras” não conseguem devassá-las...
Em primeiro lugar, agradeço a Deus o meu encontro com A CABANA. Tal encontro apresentou-se-me como um grito! Tocou profundamente no meu grande desejo de intimidade com Deus!  Muito bom, desde que não desvalorizou as constantes buscas  já realizadas... Aprofundou-as... Sinto, contudo, que alterou ou enriqueceu possíveis direções...  Chamou atenção para o despertar de uma energia especial... E, em muitos pontos, foi confirmação e apelo para mais perseverança na conversão contínua.
Nunca, para mim, havia “caído a ficha” de que a autêntica intimidade, também com Deus, exige a CONVIVÊNCIA!:
1) Exige aceitar um abraço tão afetuoso e tão poderoso que “me levante do chão”... Chão que em minha natureza sensível domina desejos, gostos, dificuldades, alegrias e tristezas     - tudo o que me marca como o EU com que me apresento... Este EU que precisa acreditar na “declaração de amor” com que o Pai começa a convivência... Curtir um deliciamento... mesmo sem nenhuma idéia clara do que se passa...
2) Exige perceber amor ao “ouvir”  - dos lábios\coração do Pai – o próprio nome, apesar de quaisquer circunstâncias existenciais que marquem  a própria “situação vital”... Nesta situação vital incluem-se possíveis sentimentos de inaceitação, falsas percepções, falta de fé, até o abismo da revolta com sinais de ódio...
3) Ainda exige cultivar  um movimento íntimo de que Deus é bom e que no seu amor crescem, em mim, forças especiais e insubstituíveis  a partir da CONFIANÇA – única base segura da INTIMIDADE!...
4) Enfim,exige que eu seja íntima de um Deus que “me criou para” e “me quer” convivendo com Ele, de acordo com o seu projeto de felicidade para toda a humanidade. Sim! Isso mesmo! Convivendo com Ele!... Ainda que sentindo Sua essencial transcendência.  Esta transcendência, própria do Ser Divino, e a serviço da minha realização na  Sua convivência, faz soar alertas básicas ao sentido da minha vida com DEUS:
As realidades que me envolvem – em dimensões micro ou macro – estão sempre muito além do que vejo e capto nelas...
A presença de Deus é sinalizada por transformações profundas no que vejo e sinto...
Um novo olhar para mim e em volta de mim, mesmo que minhas cicatrizes de experiências vividas, possam perturbar a minha sensação de realidade!  Mas que bom viver uma intimidade divina que – quando a minha sensação é de estar perdida – Jesus “aperta a minha mão” e afirma “lamento se a sua sensação é essa,  mas  ouça com clareza: você não está perdida!”...,
Desde que conheci a B.Elisabeth da Trindade sou sua fã, cheia de uma santa inveja da sua espiritualidade: Sua “certeza” de que “é habitada” pelos”seus TRÊS”...
A CABANA me deslumbrou pela “possibilidade” da pessoa humana CONVIVER com a TRINDADE SANTA, embora, isto seja, evangelicamente, uma realidade de fé. O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE se revelando na sua dinâmica essencial da unidade perfeita na acessibilidade a  três pessoas distintas.
Esta realidade, única e misteriosa, é a GRAÇA DIVINA para o nosso viver e conviver. Toda a intimidade de uma convivência com a Trindade deve tornar-se um exercício constante: Deus é AMOR! Pode e quer AMAR! É o EXEMPLO único do verdadeiro amor, tornado possível pela sua natureza de “três pessoas”.  E com uma conseqüência deliciosa e preciosíssima para a humanidade: Todo relacionamento\amor só  é possível para mim e para todos(as) porque já existe dentro desta Trindade maravilhosa.
Os diálogos acontecidos em A CABANA e a forma dos TRÊS interagirem entre si e com o personagem são algo com fortes tons  reestruturadores de meu ralacionamento\INTIMIDADE:
·        As atitudes, sempre receptivas e plenas de amor são constantes   e independem  de  como o  ser  humano se considere, foi, e, está   se sentindo no momento...
·        As palavras declaradas penetram e mexem num “mais profundo” incômodo e – consciente e\ou inconscientemente – ignorado... Bendita perplexidade!... Como se as palavras dEles estivessem se envolvendo na pessoa, envolvendo-a e falando com ela de maneiras que vão além do que ela pode ouvir... Que tesouros escondidos estão, por gratuidade total do amor, nas minhas tentativas de CONVIVÊNCIA\INTIMIDADE!...
·        Nas originalidades representativas das pessoas do DEUS TRINDADE, – sem interesse ou referências quanto à propriedade da representação -- curti um  PAI\MÃE que cuida e serve, pronta e solicitamente, oferecendo sempre uma imensa abundância de alimentos desconhecidos...  Jesus, um judeu trabalhador, especialista na CONVIVÊNCIA, sendo irmão e amigo, pela natureza amorosamente adotada, e habitualmente muito próximo por uma amizade e companheirismo próprios de um amor infinito!...  O Espírito de Deus na dificuldade de uma clara percepção visual, mas desdobrando-se em “presenças variadas” e “percepções contínuas” de uma essencial penetrabilidade...  (Preciso abrir um parêntese para um deleite especialíssimo de uma – no assassinato violento da filhinha do personagem – “presença envolvente” do Espírito que me deixou sem “um medo meu” da “forma de morrer”...)
Deus Trino, por teu amor, por teu jeito de ser, cria, dentro de mim, a MINHA CABANA e faz-me curtir um constante DIÁLOGO CONTIGO!!!
         Importa enfocar que, o amor do Deus Trindade – exemplo para a humanidade – produz a PAZ e mostra uma característica impressionante: evita exercer o poder, escolhendo se limitar e servir, pois só assim alcança os pequenos e humildes -- os preferidos pelo AMOR...
         Esses TRÊS em que sou chamada a VIVER\CONVIVER, exemplificam um relacionamento sem exercício de poder, sem competição, sem imposição, onde imperam expressões naturais de amor e amizade concretas gerando um BEM-ESTAR contrário a quaisquer expressões de egoísmo: centração no EU sem abertura aos OUTROS.
         Este relacionamento eu o sinto como fonte que mata qualquer sede de felicidade... compensando   qualquer esforço...
         Sou feliz porque, na Fé, aceito este MISTÉRIO!... Como seria sem graça e inseguro, adorar um “deus” que eu posso dominá-lo por compreendê-lo totalmente?... O Deus que eu adoro me ultrapassa... no melhor de que eu possa pensar, desejar, sentir, imaginar...  É o ROCHEDO que me permite agarrá-lo, apesar de toda mesquinhez/pequeneza, sempre marca indesejável em minha vida...
         A CABANA é pródiga, desde que na intimidade da convivência – para nos transformar, estragados que somos por uma convivência superficial, individualista e competitiva -- deixa perceber uma relação profunda, marcada 1) pela ausência de qualquer domínio hierárquico e 2) por uma quantidade imensa de expressões de afeto e interesse pelo outro – nunca objeto de culpa e\ou julgamento!
         Realmente A CABANA me ofereceu “um presente”! Uma luz orientadora nas minhas procuras da sempre sonhada INTIMIDADE:
         “Não estou separada da Santíssima Trindade mas incluída na vida trina. Essa é a minha identidade e esse é o meu destino de alegria. Sou amada, aceita, abraçada para sempre e adotada. É o meu chamado\vocação: minha identidade em Jesus me chama e liberta para que eu me torne quem sou – AQUELA QUE É AMADA, ACEITA E ABRAÇADA PARA SEMPRE!”
         Felicidade máxima, mesmo que – na também minha verdade de pecado – devo confirmar, confessando muitas vezes, que essa minha identidade, ainda não é o meu modo de vida! Mas... A GRAÇA DO ABANDONO trabalha em mim... Não duvidar disso, por causa do Deus Amor, é a minha força e a minha única fonte de felicidade!...
         Concluo, retomando o meu encantamento quando da descoberta da  AÇÃO CATÓLICA, aos vinte e poucos anos... Faço-o, como naquela época, declarando que, a minha impressão é ter ficado “bestificada” durante todo o “processo” da minha reação À CABANA.
         Minha busca de coerência\fidelidade – apesar do treino constante da humildade “do nada sou sem a presença do meu Deus AMADO” – exige TRANSFORMAÇÃO, através de atitudes e atos concretos do amor\gratidão...
Então a vibração/conseqüência do conviver com o Deus Trindade na CABANA, dentro de mim, no dia-a-dia, leva-me a desejar muito, de verdade, sonhar mesmo: ...
ü Amar mais e melhor...
ü  Fazer uma revolução pelos poderes silenciosos e cotidianos de morrer, servir, amar e rir...
ü  Ser rápido em perdoar e mais rápido em pedir perdão...
ü  Ser adulto levando a vida com simplicidade e alegria...
ü  Aceitar bem as mudanças...
ü  Treinar sempre a ternura simples e a gentileza gratuita...”


Recife, 03 de julho de 2012
Narcisa Veloso de Andrade